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O problema das bets não começou nas apostas. Começou na publicidade.

6 min de leitura

Nos últimos meses, um tema ganhou espaço nas discussões sobre publicidade e responsabilidade social: as plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets.

A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou a proibição da publicidade dessas empresas em espaços públicos, enquanto órgãos de defesa do consumidor, especialistas e autoridades intensificaram o debate sobre os impactos desse mercado na sociedade.

Mas essa discussão não começa nas apostas.

Ela começa muito antes.

Ela começa na publicidade.

A publicidade nunca foi apenas uma ferramenta para vender

Durante muito tempo, empresas enxergaram a publicidade apenas como um meio para divulgar produtos, gerar vendas e conquistar novos clientes.

Na prática, ela sempre foi muito mais do que isso.

A publicidade influencia comportamentos, molda hábitos de consumo, cria tendências e fortalece percepções.

Todos os dias, marcas disputam espaço na mente das pessoas, buscando não apenas atenção, mas também confiança e preferência.

Por isso, toda campanha carrega uma responsabilidade que vai além dos resultados comerciais.

Quando uma comunicação é eficiente, ela não muda apenas decisões de compra. Ela pode mudar comportamentos.

O crescimento das bets mostra o poder da publicidade

Poucos mercados cresceram tão rapidamente quanto o de apostas esportivas no Brasil.

Segundo o diretor executivo do Procon-SP, Luiz Orsatti Filho, havia uma estimativa de que o setor movimentaria R$ 160 bilhões em 2025. No entanto, os números já ultrapassaram R$ 350 bilhões, impulsionados por investimentos massivos em publicidade, patrocínios esportivos, influenciadores digitais e campanhas em diversos meios de comunicação.

Esse crescimento não aconteceu por acaso.

Ele foi impulsionado por uma estratégia de comunicação extremamente eficiente, capaz de tornar as apostas parte da rotina de milhões de brasileiros.

É justamente aí que está uma das maiores demonstrações do poder da publicidade.

Quando a comunicação influencia decisões

Uma pesquisa realizada pelo Procon-SP mostrou que mais de 80% dos entrevistados receberam ofertas de apostas sem nunca terem procurado esse tipo de conteúdo.

Além disso, 50% afirmaram que campanhas com celebridades influenciaram sua decisão de apostar, enquanto quase 40% relataram ter acumulado dívidas relacionadas aos jogos.

Os números evidenciam que publicidade não apenas desperta interesse.

Ela influencia escolhas.

Constrói desejos.

Normaliza comportamentos.

E, em alguns casos, pode gerar consequências que ultrapassam o ambiente comercial.

Não por acaso, a discussão passou a envolver órgãos reguladores, legisladores e entidades de defesa do consumidor.

A Copa do Mundo amplia esse debate

A proximidade da Copa do Mundo tende a intensificar ainda mais esse cenário.

Segundo pesquisa realizada pela Creditas em parceria com a Opinion Box, 56% dos brasileiros pretendem participar de bolões ou apostas durante o torneio, percentual que chega a 69% entre os jovens.

Mas existe um dado ainda mais preocupante.

Um em cada cinco brasileiros afirma que aceitaria se endividar para apostar durante a Copa, índice que sobe para 30% entre jovens de 18 a 24 anos.

Quando a emoção de um evento esportivo passa a ser utilizada como estímulo para decisões financeiras impulsivas, o debate deixa de ser apenas sobre entretenimento.

Ele passa a envolver responsabilidade na forma como marcas se comunicam.

O impacto vai além da economia

Os reflexos desse crescimento já podem ser observados em diferentes áreas da sociedade.

Segundo a pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima, 25% das pessoas entre 16 e 28 anos utilizaram aplicativos de apostas no último ano, sendo que a Geração Z representa aproximadamente dois terços desse público.
Na saúde, o Programa Ambulatorial do Jogo (Pro-Amjo), do Hospital das Clínicas de São Paulo, registrou um aumento significativo de jovens em tratamento por transtornos relacionados às apostas.

Na educação, um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior revelou que um terço dos jovens entrevistados deixou de iniciar uma graduação por conta de gastos com apostas.

Entre estudantes das classes D e E, esse número chega a 43%. Esses indicadores mostram que campanhas publicitárias podem movimentar bilhões de reais, mas também produzir impactos econômicos e sociais que precisam ser considerados.

O que isso ensina para qualquer empresa?

É importante deixar claro: este artigo não busca discutir se apostas devem ou não existir.

A reflexão é outra.

Toda empresa, independentemente do segmento em que atua, comunica valores, influencia percepções e participa da construção de comportamentos.

Nem toda marca investirá milhões em publicidade.
Mas toda marca influencia pessoas.

Cada anúncio, cada campanha, cada conteúdo publicado fortalece uma percepção sobre o negócio.

E percepção gera confiança.

Confiança gera reputação.

E reputação continua sendo um dos ativos mais valiosos de qualquer empresa.

O futuro da publicidade será cada vez mais responsável

Consumidores estão mais conscientes.

Órgãos reguladores acompanham com mais atenção a comunicação das empresas.

E o próprio mercado começa a compreender que resultados sustentáveis dependem de algo maior do que alcance e conversão.

Dependem de responsabilidade.

As ferramentas de marketing evoluem constantemente.

Novos formatos surgem.

A inteligência artificial acelera a produção.

Mas uma coisa permanece igual: Toda comunicação gera impacto.

A pergunta que toda empresa deveria fazer não é apenas “como vender mais?”.

É também: “Que tipo de influência queremos exercer sobre as pessoas?”

Porque comunicar nunca foi apenas vender.

É construir reputação.

É gerar confiança.

E assumir a responsabilidade pelo impacto que uma marca deixa na sociedade.

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